sábado, 18 de julho de 2015

THE HEART GOES LAST - Margaret Atwood

Stan está na cafeteria da Possibilibots com os rapazes de sua equipe - sua nova equipe, a equipe em que acaba de ser inserido. Ele está tomando uma cerveja, aquela cerveja aguada com gosto de mijo que agora fabricam na Consilience; além de uma porção de anéis de cebola e batatas fritas, e um prato de asinhas da BBQ. Chupando a gordura de uma asa, ele pensa que ele mesmo pode ter cuidado da dona dessa asa quando ainda estava coberta de penas e presa a uma galinha. Uma galinha Positron, na Prisão Positron de galinhas que ele supervisionava em meses alternados, quando sua vida era normal.

Agora é como se um século tivesse se passado, aquele período em que ele morou com Charmaine na casa insípida porém bem cuidada de Consilience. Ela vivia lavando e passando roupa e usava um avental, como numa recriação de uma sitcom dos anos 50, e ele mantinha a grama bem cortada e as cercas aparadas, e eles faziam amor tranquilamente sob um lençol estampado com flores, laços de fita e pássaros azuis. Sim, ele ficou entediado, teve o impulso de pular a cerca, mas não são assim todos os maridos? E, sim, ele ficou obcecado por uma mulher que no fim das contas nem existia, mas mesmo isso pertencia ao âmbito da normalidade, a maioria dos homens fazia isso pelo menos uma vez na vida. Era uma coisa hormonal, a ilusão, a desilusão. Era o esperado. E, sim, ele descobriu que Charmaine o estivera traindo; isso era esperado também, e com o tempo ele poderia lidar com esse fato.

                                                                            ***

Mas isso foi antes de o chão ser arrancado de baixo de seus pés, como uma placa oleosa de grama artificial, e ele se viu amarrado a uma maca, totalmente dopado, com a língua tão enrolada que não podia falar. E então, Charmaine com sua cara de anjo entrara no quarto e, às lágrimas, espetou uma agulha nele, acreditando plenamente que o estava assassinando. Pelo menos ela tivera a decência de chorar, não que a choradeira significasse muita coisa. Ela sempre tivera facilidade para as lágrimas. 

A desgraçada. Se os papéis estivessem trocados, teria ele feito a mesma coisa com ela? Não. Claro que não. Bem, possivelmente. Sob persuasão. Ou sob coerção.  Dependendo do que estivesse em jogo. Se ele mesmo fosse assassinado caso não fizesse isso.

Ou talvez para salvar a humanidade. Embora cada vez mais ele se pergunte por que ele se incomodaria em fazer isso: quanto mais ele sabe sobre a humanidade, menos ele gosta dela. E mais ele desconfia que debaixo de cada superfície aparentemente inócua, assim como a superfície loira, inocente, de olhos grandes e sorridente de Charmaine, existe um poço tóxico.  Egoísmo terminal, cobiça  e ganância, más intenções: elas proliferam. Não que ele estivesse imune a tais motivações; mas ele tinha pouco espaço para botá-las em ação.

Para a sua sorte, ele não morreu depois da injeção, apenas apagou. Quando acordou, estava soterrado por ursinhos azuis de tricô, em um depósito repleto de algo que pareciam caixões. Então, sua cuidadora, Jocelyn, chegara para desperta-lo com um café repugnante e lhe transmitir uma série de instruções codificadas - basicamente, aguardar por novas instruções. Depois das quais, seria removido clandestinamente da Positron e depois para fora dos muros da cidade de Consilience. Então ele  poderia partir para salvar a democracia com as próprias mãos ou alguma palhaçada do gênero. Como se tivesse restado alguma democracia, e mesmo se tivesse, como se ele pudesse salvá-la. Ele seria um mensageiro, segundo Jocelyn; mas qual é exatamente a mensagem e para quem ele deve entregá-la? Ele não tem a menor ideia.

Lógico que ele seguiria os planos dela. Não havia opção: se ele a mandasse para o inferno, ela quebraria seu pescoço num só golpe. Ele tinha provas de sobra de que ela era treinada para quebrar pescoços ou algo equivalente durante o período compulsório que ele cumpriu como seu brinquedo sexual e empregado doméstico. Seja o que for, ele pensou. Qualquer coisa para sair desse pesadelo, para fora dos portões de Consilience, de volta ao mundo exterior decadente e anárquico. Uma vez lá fora, ele poderia fugir, pelas pocilgas urbanas em ruínas que ele conhecera tão bem um dia. Ele poderia fugir para bem longe da Positron e seus grandes esquemas, aqueles grandes esquemas que Jocelyn - que já fora uma grande apoiadora - estava determinada a destruir. Ele poderia fugir para bem longe de Jocelyn também, com suas intenções elevadas, suas pernas bonitas e suas inclinações sexuais extremas. Ele poderia correr sem parar.

(Mas, e Charmaine? O que quer que ela pense que fez para ele, não foi premeditado: ela estava muito triste. Ele não pode deixa-la para trás. Ou pode? Talvez ela esteja mais segura lá dentro, longe dos assassinos e das gangues. Talvez ela seja mais feliz.) 

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