terça-feira, 31 de agosto de 2010

FUNK

Daiane, a atendente da pet shop, chegou à loja uma hora antes de abri-la para o mundo. A camiseta branca dizia em letras grandes SANGUE BOM. Ligou o rádio e começou a dançar. Os filhotes de gato e cachorro se espreguiçavam em seus engradados, tentando compreender aquele ser humano que se contorcia, levando uma mão aos lábios para logo em seguida lançar os presentes invisíveis que extraía de lá. Nas gaiolas e nos aquários, as atividades também se iniciavam. "Bom dia, gente", proclamou Daiane no ritmo da música. E aumentou o volume.

Dando prosseguimento à rotina diária, passou um pano no chão. E às nove em ponto ergueu a porta de ferro. Para alguns moradores a abertura da loja tinha um efeito mais decisivo do que o próprio nascer do sol, atingindo a rua em cheio com sua movimentação animal, sua música alta e o ir e vir agitado de Daiane. Era como uma enorme boca que se abria, lançando ao mundo uma louca gargalhada. Oficializava-se assim o verdadeiro início de mais um dia.

Naquela manhã de muito calor, Rodrigo chegou atrasado, sem demonstrar pressa. Não era de transparecer suas aflições, por menores que fossem, um traço de sua personalidade que atraía ainda mais o fascínio de Daiane. Os cachos negros soltos brilhavam aos olhos castanhos da garota. Responsável pelo banho e a tosa dos animais, Rodrigo foi para a área dos tanques, no fundo da loja, com seu passo de leopardo preguiçoso.

-A Dona Violante vem aí. – gritou Daiane por cima da algazarra que ela mesma instaurara. – Hoje é aniversário da Scarlet e ela quer banho, tosa e tingimento pink com azul. Capricha, Rodrigo.

-A Scarlet? Ela ainda está viva? Caramba, aquela poodle deve ter uns 80 anos. Será que aguenta o banho?

-Aguenta, sim, Rodrigo. Aquela lá é dura na queda.

Pretendia estender a conversa, sugerir um chope no fim do dia e finalmente dar o tão preparado bote em Rodrigo. Mas foi interrompida pela chegada de uma cliente. Alta, magra os cabelos ruivos ondulados e soltos até os ombros, ela segurava um estabanado dogue alemão preto na coleira. Sobre um pescoço imenso, o rosto pálido parecia engessado numa expressão de distanciamento, como se o que estivesse ali fosse apenas um eco de si mesma. Nem quando começou a falar, deu a Daiane a impressão de estar se dirigindo especificamente a alguém. A voz era plana, anêmica. Perguntou se vendiam uma determinada marca de ração, como quem se comunica com entidades invisíveis.

-Não tem essa ração aqui não, senhora. – disse Daiane, sentindo seu incômodo se transformando em terror. Tinha um certo receio dessas mulheres esqueléticas, fantasmagóricas.

Rodrigo reapareceu curioso na área principal da loja. Seu habitual ar de descaso deu lugar a uma simpatia que Daiane jamais tinha visto. Daiane aumentou o rádio e amarrou a cara. As pestanas morenas pesaram sobre os olhos castanhos.

Então, Dona Violante chegou com Scarlet. Ambas idosas. Ambas frágeis e trêmulas. O dogue alemão entrou em estado de alerta e não hesitou em se aproximar da cadela anciã, na tentativa de conhecer seus cheiros. Orelhas apontadas, a cauda abanando, o gigante negro era só curiosidade e vontades. Scarlet, acuada, rosnou para ele, exibindo corajosamente as gengivas e os dentes que lhe restavam. Não estava mais em idade para aquele tipo de brincadeiras, pareciam dizer suas pupilas vermelhas e dilatadas. O macho, num tranco, derrubou sua dona ruiva no chão, desvencilhando-se assim do seu controle. Scarlet, tomada de ódio e medo, desferiu uma inofensiva mordida de intimidação. Indignado, ele abocanhou o seu pescocinho, fazendo surgir na pelagem algodoada, gotículas esparsas de sangue. E em meio ao vociferar infernal dos dois cães, Scarlet pôde ainda aplicar-lhe mais uma mordida, o que de nada adiantou, porque o que foi abocanhado desta vez foi uma patinha dianteira. Bastou um puxão para que esta fosse arrancada do corpo na altura do ombro.

Tudo isso aconteceu em pouquíssimos segundos. Não houve tempo para nada. O dogue alemão saiu galopando da loja ostentando vitorioso seu prêmio branco entre os dentes. Scarlet gania ensanguentada ao lado de Dona Violante, fulminada ali mesmo por um ataque cardíaco inclemente. A moça ruiva, em estado de choque, não se movia. Ajoelhada no meio da loja, empalidecia a níveis quase transparentes. Os ganidos de Scarlet cessaram. Daiane se virou para Rodrigo, que se dirigia para acudir a moça ruiva. Puxou-o com tanta força pela manga da camiseta, que rasgou o tecido. Agarrou o rapaz, grudando seus lábios contra os dele, enquanto esmurrava suas costas. O beijo fora tão violento que ambos sentiram sangue misturar-se às suas salivas. Pararam de se beijar e se olharam fixamente, como se buscassem um no outro, algo que se perdera na confusão. Foram interrompidos desse transe pelo grito da moça ruiva, que saíra de seu estado. Estapeava-se e puxava os cabelos vermelhos, como se quisesse arrancá-los. Uma multidão se formou na porta da loja. Os bombeiros logo chegaram. Daiane notou que seu corpo reagia novamente à batida explodindo nos alto falantes.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

POR QUE ELA ESTAVA LÁ

Íris nunca imaginou que aquilo pudesse acontecer. Enquanto passava calmamente o algodão pelo rosto, os olhos fitos no espelho do banheiro, fazia de conta que nada havia mudado, que por dentro não estava em ebulição. Executava os movimentos de sempre, a loção de limpeza a purificar a pele. Mas de quando em quando, o olhar se perdia, não mais acompanhava como um treinado capataz, a antiga coreografia da mão direita a limpar a face cansada. Obrigava-se a não demonstrar surpresa a si mesma toda vez que lhe vinha a lembrança do email. Jorge. Cinco anos depois. Queria vê-la. Escovou os dentes e foi se deitar.

O marido já dormia com o livro sobre o peito, os óculos pendurados de uma orelha. Íris contemplou o semblante adormecido, a respiração no compasso de quem sonha. Pegou o livro, os óculos, e os depositou em silêncio sobre o criado mudo. Antes de apagar a luz procurou se lembrar de quando ele passou a adormecer antes dela. Três anos atrás? Cinco? Não. Quando conheceu Jorge,. Tarcísio já adormecia antes e não testemunhou suas insônias.

Primeiro, vieram os meses de euforia, febre, o galope de cavalos no peito. Dormia de olhos semiabertos, sentindo o próprio sorriso correndo pelas veias dos braços e pernas, atiçando o ventre. Depois, veio o período das dúvidas, quando o sorriso deu lugar a um empertigar sério e preocupado do tronco. Empilhava alguns travesseiros atrás das costas e passava a noite praticamente sentada, atenta: estaria tudo mesmo por um triz? E logo depois, os longos meses da dura certeza, do corpo prostrado, das noites escuras e intermináveis. Mantinha os olhos fechados numa tentativa inútil de silenciar os discursos que vociferava mentalmente. Às vezes rezava, e o fazia com tanta intensidade que as palavras se esgueiravam de sua boca, num tom tão mórbido que ela se continha. Mas quando conseguia mergulhar no sono, voltava a se ouvir, mais alto do que se estivesse acordada. Por fim, parou de resistir aos seus próprios desmoronamentos e se entregou à prática dolorosa da resignação. Só assim que a aflição finalmente se esvaiu, escorrendo-lhe pelo rosto em linhas mornas e tortuosas. As horas de sono retomaram a normalidade. E Íris esqueceu. Pensou ter esquecido. Via agora, ao penetrar na escuridão do quarto, que tudo ainda estava lá, bem onde ela havia deixado. E notou pela posição que se deitava, que ela mesma ainda estava lá, onde ele a havia deixado. E por pior que fosse esse lugar, tinha agora um novo componente acionando as batidas do coração: o encontro do dia seguinte. Não mais sob o olhar severo do espelho do banheiro, Íris permitiu que uma camada de alívio se espalhasse como um analgésico pela alma endurecida. Adormeceu abraçada em si mesma.

No dia seguinte, desmarcou comprompissos, nem levou os filhos à escola. Sumiu. Meteu-se no salão de beleza decidida a recuperar os anos empregados naquela sinistra aceitação, naquele acordo injusto que fizera consigo mesma nos labirintos de suas noites de insônia. O encontro estava marcado para às quatro, no restaurante Gaivota ( onde sempre se encontravam ). Às duas, já estava ali por perto, pronta, sem nada para fazer. Não suportava a ideia de chegar antes dele. As horas de espera destruiriam aquilo que conseguira construir naquela manhã: uma máscara de indiferença. Poderia entrar num cinema, distrair-se com um enredo que não fosse o seu, e encontrar Jorge com um semblante menos consumido pelas lembranças. Poderia chegar um pouco atrasada. Assim fez. Escolheu um filme infantil.

Os personagens surgiram na tela em cores vibrantes, movendo-se como se obedecessem a uma gravidade variável: ora leves, quase flutuantes, ora pesados. Íris tentava associar suas falas às cenas, mas era somente a si mesma que ouvia. Então notou que estava sentada na beira da poltrona, as mãos sobre as coxas, o pescoço ereto, enquanto fitava a imensidão do cinema vazio, o exército de poltronas vermelhas e brilhantes que pareciam refletir o seu pavor. E se Jorge só estivesse querendo vê-la como quem reencontra uma velha amiga? Velha... Velha e corroída pela insônia, pelo não sentir. Vislumbrava um tremor capaz de derrubar a fortaleza que havia erguido para permanecer viva. Consentiu.

Não precisou esperar muito. Imagens e frases foram surgindo na carne laranja escuro de suas pálpebras cerradas. Os fatos se apresentavam soltos de sua ordem cronológica: o dia em que entraram numa loja de molduras sem saber exatamente o que estavam fazendo ali, o passeio na praia, os bombons com o cartão de aniversário, o bilhete de encerramento, o primeiro encontro na livraria. Nem mesmo as sensações obedeciam uma linearidade: o gelo no peito, a falta de apeteite, a fome, o ódio, a ternura. E então, os cinco anos de vácuo. O esquecimento de si mesma, o envelhecimento. O silêncio. Mas por seus corredores escuros se esgueirava algo novo: uma sensação de morte. Tinha ido longe demais, pensou. E abriu os olhos.

Levantou-se, precisava andar. Percorreu o cinema várias vezes a passos lentos, acolhida pela penumbra, pelo clarear e escurecer imprevisível do filme.

Terminada a sessão, ela saiu do cinema e andou pelo shopping center. Retomava mentalmente partes do discurso que ensaiara anos antes, escolhendo os trechos mais objetivos, embora terminasse todas as versões com um pesado "Você me abandonou", dando uma ênfase especial ao "você". Era aí que pretendia concentrar todo o clímax de sua declaração. Finalmente poderia acusá-lo disso. Mas agora, a poucos minutos do encontro, aquilo não fazia mais sentido. Ele decerto diria: "Eu sei". Então, aconteceu o que não estava previsto: ela não tinha mais nada a dizer.

Já na rua, Íris se deu conta de que estava 15 minutos atrasada. Ótimo, pensou. Parou na frente do Restaurante Gaivota e olhou para dentro. Viu Jorge numa mesa distante, conversando com um garçom. Íris não se manifestou de imediato, preferiu ficar a observá-lo. Como se o espionasse e pudesse extrair desse instante as respostas para todas as suas dúvidas. E o que viu ali era um homem comum, inofensivo, não mais alguém capaz de destruir alguns anos de sua vida. Achou-o feio. E, antes que se dirigisse à mesa dele, constatou para o seu espanto, que estava oca. Não o queria mais. Ficou alguns segundos parada, buscando algum ponto dentro de si que a fizesse mover as pernas e se dirigir até ele. Só conseguia se sentir ridícula. Quem era ele afinal? Tomada de uma frieza generalizada, começou a andar. E antes que ele virasse a cabeça e olhasse para ela, Íris pensou em Tarcísio, os óculos pendurados na orelha, o livro aberto sobre a camisa do pijama. Então, quando seus olhares finalmente se encontraram, ela fez um esforço para sorrir, tentando convencer a si mesma de que estava ali por um motivo muito especial.

domingo, 21 de março de 2010

PRESTAÇÕES

O calor do verão castigava a tarde quando Moacir entrou no ônibus. Escolheu um banco na última fileira, à janela. No colo, a pasta com os carnês de pagamento do guarda roupa dos pais e o da geladeira. Ainda faltavam nove prestações e Moacir estava encarregado de ir pagá-las. Era o único em casa com as tardes livres.

O ônibus seguia sem pressa. Moacir observava os passageiros que embarcaram com ele no terminal: duas senhoras sérias e caladas; uma moça de vinte e poucos anos que segurava um bebê; e um garoto não muito mais velho do que ele, mas já em idade suficiente para pelo menos aparentar saber tudo que era necessário saber sobre a vida. Tentou imaginar quem seriam aquelas pessoas nas suas casas, que móveis teriam, se eram felizes, e como teriam sido quando eram da sua idade. Será que também iriam descer no ponto final?

Depois voltou a atenção para o garoto. Ele estava sentado de pernas afastadas, a camisa aberta, uma grossa corrente prateada brilhando no peito. Ainda não era um homem, mas para Moacir, estava mais próximo de vir a sê-lo do que ele poderia se imaginar. Estava naquele estágio do crescimento dos meninos em que uma espécie de sombra de brutalidade parecia ofuscar-lhes a infância: as sobrancelhas, os lábios, o nariz ganhavam um misterioso destaque. Ao visualizar-se daquele jeito, ficava melancólico. Talvez por achar que essa transição seria impossível para ele: jamais deixaria de ser um menino. E quando chegasse o momento em que não houvesse mais o menor traço de criança no semblante, na voz e no corpo, era bem provável que não saberia como agir. Decerto faria o que os outros acabavam fazendo naturalmente, mas no seu caso, agiria por imitação. Dessa forma, ninguém notaria que, por dentro, ele ainda não se tornara um homem.

De olhos fechados, entregou o rosto ao ar da tarde que entrava pela janela. Queria ficar assim, para sempre, que o ônibus seguisse sem chegar a lugar nenhum. A vida existindo lá fora sem a sua participação, sem necessitar dele.

Imaginou-se a bordo de um carrinho de montanha-russa. O sacolejar do ônibus e o vento aumentavam a sensação de velocidade. Apertou os dedos no encosto do banco da frente, acreditando que despencava por vertiginosas descidas. Prendia a respiração, sorria de alívio nas retas e subidas, ansiava pela próxima curva.

Então, uma sensação úmida e quente o tirou de sua aventura. Um braço estava encostado no seu, exercendo uma discreta pressão. Na perna esquerda, o peso de outra perna era aplicado com menos sutileza. Encurralado no canto do ônibus, Moacir não ousou abrir os olhos. O braço da pessoa ao lado se desencostou, para depois se encostar novamente, fazendo curtos movimentos de vai-vem. Trêmulo, sentiu a textura de pelos, suor e carne. Continuou imóvel.

Um grosso pingo de chuva bateu em sua testa, e logo uma tempestade desabou sobre a cidade. Moacir ouvia que os passageiros fechavam apressadamente as janelas do ônibus. Cabia a ele fechar a que estava ao seu lado. Mas ele não conseguia se mexer, os olhos fechados, a chuva a ensopar seu rosto. Não sentia mais o braço do passageiro vizinho e também não sentia mais o próprio corpo. Só o coração a esmurrar-lhe o peito.


sexta-feira, 30 de outubro de 2009

UM HOMEM INSIGNIFICANTE

Deixar tudo para trás nunca foi tarefa das mais difíceis para mim. Muito pelo contrário. De todos os preços que eu pago por ser imortal, esse sempre foi o mais baixo. O enredo era sempre o mesmo: um convite para sair, que eu não recusava justamente para não levantar suspeitas; e uma enxurrada de perguntas que eu respondia com informações precisas, porém falsas. Uma semana depois eu já estaria em outro estado, ou mesmo outro país, com uma nova identidade. Mas os motivos que me levaram a dar as costas para a pacata vida que conduzi até ontem não estavam previstos. O que me ameaçava dessa vez, não era a possibilidade de ser descoberta, mas o risco de não conseguir partir caso fosse preciso.

Tudo começou quando aquele homenzinho insignificante e avoado veio trabalhar na repartição. Eu já ocupava o cargo de datilógrafa havia três anos, e ninguém jamais perguntara coisa alguma sobre minha vida particular. Ambiente ideal. Percebi, naquela segunda-feira, que o novo contratado não tirava os olhos de mim.

Várias semanas se passaram até que ele finalmente me dirigiu a palavra. Emitiu um pálido “bom dia”, quase trêmulo, o sorriso congelado. Por quatro meses, isso era tudo que vinha dele, uma admiração secreta, cultivada à distância. Sentia seu olhar pousado em meus dedos que disparavam frenéticos pelas teclas da Olivetti. Hoje me dou conta de que tentava impressioná-lo, inclinando a cabeça ora para um lado, ora para outro, emanando competência e suavidade. Como não percebi que todos os meus gestos vinham sendo aprimorados só para arrancar suspiros melancólicos do meu novo colega de trabalho?

Uma alegria discreta que nem eu mesma notava, substituía o tédio que eu carregava havia trezentos anos. Esqueci-me de que era eterna, de que sempre chegava a hora de partir. Como fui me descuidar? Teria sido aquela troca de olhares na sala do café? Ou o sorriso que ele me devolveu quando elogiei sua camisa nova? Quanta imprudência!

Então, um dia, ele me convidou para ir à lanchonete depois do expediente. O convite foi feito por escrito, um bilhete sobre minha mesa. Irrecusável. Não respondi de imediato, mas faltando poucos minutos para encerrar o dia, peguei minha bolsa, e virei-me para ele:

-Vamos?

Tensos e apreensivos, ocupamos uma mesa de canto, e pedimos refrigerantes. Mas as formalidades da repartição caíram por terra assim que ele me contou que, num passado remoto, havia sido mágico de circo. A conversa então tomou um rumo inesperado e irreproduzível. Só me lembro que ríamos de tudo e, quando dei por mim, estava em seus braços, no quarto da pensão onde ele morava.

Alheia à minha imortalidade, entreguei-me ao que se desenrolou naquela noite. As paredes encardidas daquele mísero espaço se transformaram numa tela de cinema, onde eu e meu ex-mágico, protagonizávamos peripécias de todas as fases da história do mundo. Fundidos numa única entidade, explodimos em cores e sons. E adormecemos sob o mesmo acorde, os sonhos entrelaçados.

Meus passos apressados ressoam pela calçada deserta. Ainda é noite. Ele dormia quando fechei a porta do quarto atrás de mim. Em breve estarei bem longe daqui.

sábado, 17 de outubro de 2009

ABISMOS

Me chamo Helenice. Desde pequena, gosto de pensar. E dizem que tenho um olhar vago e distante. Fui uma criança séria e calada, sempre uma boa aluna. Os professores se espantavam com minha capacidade de concentração. Nessa época, não me custava nada. Era confortável. Na verdade, o que eu sempre queria, era o contrário: dispersar-me. Mas, enquanto as notas eram boas e os elogios vinham de todos os lados, estava tudo bem.

Minhas horas de sono foram diminuindo. Desde os dez anos de idade, não durmo mais que 30 minutos. Quando durmo. Assim, na quietude das madrugadas, aproveitava meu poder de concentração para criar jogos mentais comigo mesma, numa tentativa infrutífera de me cansar e dormir.

Nos primeiros devaneios, via uma imagem idêntica de mim mesma, porém invertida, existindo numa realidade também idêntica à minha, e também invertida. Essa mesma imagem existiria numa terceira realidade, idêntica à segunda e novamente invertida. E assim por diante, até os desdobramentos se perderem de vista. Passei a projetar essa multiplicação em qualquer hora do dia, até que alguém viesse me chamar para comer, dormir, ou me vestir. Lançava qualquer objeto que visse nesse eterno replicar-se imaginário, na esperança de que em algum momento o fenômeno se concretizasse. Talvez tudo tenha começado no dia em que, no provador de roupas de uma loja, me vi transformada num exército de Helenices nos dois espelhos do cubículo. Ou talvez a idéia tenha nascido antes, mas não tenho certeza. Não importa.

Eu também colocava no tabuleiro de inversões contínuas as equações matemáticas que aprendia na escola, fórmulas químicas, e até receitas de bolo. Então comecei a perceber que minha alma realizava manobras, e que elas também poderiam percorrer o divertido caminho das auto-replicações. Imaginar meus sentimentos infinitesimados e invertidos colocava-me num estado de alheamento mais visível a todos, e foi a partir daí que comecei a perceber olhares densos de preocupação dirigidos a mim. Diziam que eu devia brincar mais, correr, conversar com as outras meninas. Fiz algumas tentativas, mas fui logo rejeitada porque me esquecia de brincar e parava em um canto qualquer, dedicando-me a criar novos passatempos mentais. Foi também a partir dessa época que começaram a usar a palavra “ausências” quando falavam de mim.

Mas aquilo que havia começado como um antídoto para a insônia, passou a ser o meu modo normal de pensar. Hoje, não tenho mais controle. Minha mente decide sozinha o que fazer com seus conteúdos e hoje sou uma mera espectadora das mandalas e caleidoscópios que desabrocham dentro de mim. O único inconveniente são os períodos de desintegração total: por um tempo que não sei determinar, os padrões geométricos são como que destruídos por um sistema de auto-fragmentação. Eu me esfacelo em bilhões de partículas.

Mas um terremoto ocorrido muitos anos antes de eu nascer, deixou na terra uma abertura de vários quilômetros de extensão numa área próxima de onde morávamos. Um dia, sentei-me à beira dessa fenda, as pernas balançando livremente no ar. Minha vista alcançava até um ponto obscuro que não significava necessariamente o fundo, o que me dava a impressão de não haver um fim. A vertigem provocada por essa visão do infinito, silenciou meu passatempo mental, que na época consistia em fazer os pensamentos percorrerem uma espécie de espiral verde. Meu olhar descia em queda livre pelos paredões rochosos. Os instantes iniciais eram quase insuportáveis, mas o que me mantinha ali era uma onda de silêncio e calor que se alojava agradavelmente, substituindo o meu terror. Então descobri que contemplar o abismo me proporcionava a paz que os desdobramentos, ziguezagues e outras modalidades de pensar jamais atingiam. E me salvava da desintegração.

Há um número considerável de Helenices no meu quarto e todas concordam comigo numa coisa: só o abismo me fará feliz. Eu quero estar lá. Eu preciso estar lá.

Se você leu este email até o fim, por favor, entre em contato com quem possa me salvar. Ou salve-me você mesmo. Ou envie esta mensagem para 200 pessoas de nações diferentes, nascidas no mesmo dia, em anos diferentes, e que tenham entre 25 e 60 anos, sejam da mesma altura e apresentem em seu dna uma espiral afunilada, que se repete num eixo perpendicular e diretamente proporcional à raiz quadrada da soma das idades entre todas as pessoas que puderem me ajudar. Obrigada.

sábado, 8 de agosto de 2009

METEOROLOGIA

Fulvio encostou o táxi na frente do hotel . O rádio do carro estava sintonizado na emissora meteorológica. Ouvia essa estação desde que chegara à Alemanha, não porque entendesse alguma coisa , mas pelo tom de voz acolhedor com que se dirigiam ao ouvinte. E sentia que falavam diretamente a ele. Decerto foi assim que aprendeu a língua. Gostava da forma como os locutores discorriam suavemente, como se lhe contassem os maiores segredos da vida. Ou como se proferissem bênçãos. Podia passar o dia inteiro ouvindo reportagens sobre os deslocamentos das massas de ar, os índices de pólen no vento, as concentrações de nuvens de chuva, as possíveis ondas de calor, nevascas, a pressão na atmosfera. Foi identificando os termos principais naturalmente, conforme se repetiam. Às vezes recorria a um dicionário de bolso. Ou perguntava a algum colega da frota o que queria dizer "hitze", por exemplo. E toda vez que ouvia essa palavra, lembrava-se do gigantesco bárbaro de rosto avermelhado, se abanando todo para demonstrar que "hitze" significava "calor". Quando chegou naquela cidade insólita e fria, cercada por um muro, vinte e cinco anos atrás, e se deu conta da estranheza da língua que teria que aprender, pensou em desistir. Nunca vou conseguir, ele pensava. Deixou-se levar por um orgulho de si mesmo pela facilidade com que hoje entendia tudo. Orgulhava-se também de ter construído uma vida estável no exterior, algo que poucos brasileiros que ele conheceu, foram capazes de fazer. A maioria voltava. Ele foi mais forte. Ou mais frio.

A moça bateu na janela do táxi. Puxava uma mala pequena.

Ela entrou no carro dizendo um "bom dia" num alemão sofrido que parecia ter lhe saído das gengivas. O resto foi em inglês: Tegel airport please. De onde seria? Libanesa... Não, italiana. Entretanto, o conjunto cinza e o corte de cabelo sóbrio que toda executiva estrangeira ou alemã usavam, diziam apenas que ela poderia ser de qualquer ponto do globo. Neutra. Era bonita e lhe lembrava alguém, uma atriz talvez. Não sabia. Deu a partida.

O caminho para o aeroporto era um de seus favoritos. Fazia-o pensar que quando tivesse dinheiro suficiente, largaria tudo e voltaria para o Brasil. Compraria um apartamento e abriria um novo açougue. Depois de tanto tempo, ninguém mais estaria querendo arrancar sua pele. Clea o aceitaria de volta, com certeza. O bebê que ele não conheceu devia ser um homem de 25 anos. Gostava de pensar que tinha um filho homem. Não cogitava a outra alternativa. Ele também devia se chamar Fulvio.

Saíram da região da cidade que, nos primeiros anos de sua chegada, pertencia ao outro lado. O leste. Não se espantava mais em poder transitar agora por todos os pontos cardeais de Berlim. Mas sentia que os alemães se comportavam como se o muro ainda os separasse, como se ignorassem a unificação do país. Reparava que os da parte ocidental se referiam aos do leste com um tom de superioridade, enquanto que estes devolviam palavras de puro ódio contra eles. Para Fulvio, eram todos iguais, falavam a mesma língua. De certa forma, foi esse povo partido ao meio que o acolheu no pior momento de sua vida, por isso não se metia em discussões. Resolveu não dar mais palpite. Mesmo porque, durante uma inflamada discussão de bar, quando disse brincando se não seria melhor se reerguessem de uma vez o bendito muro, achou que fossem linchá-lo. Sim, era melhor não se meter.

O celular da passageira tocou. Fulvio ficou atento. Que idioma iria ouvir? Preparado para um daqueles alôs carregados no L, ou com um sonoro agá no começo, foi surpreendido por um lânguido alô carioca. Depois: "Não, Renato. Minha mãe vai me buscar no aeroporto e..." Soltou um pesado suspiro de impaciência. "Agora, não. Quando eu chegar em casa, te ligo". Encerrou a ligação fechando o aparelho com um decisivo plac. Ele quis puxar conversa, dizer que era brasileiro também, mas se deu conta de que ela poderia ser ríspida, seus lábios crispados indicavam isso. Uma pena, tinha simpatizado com a moça. Parecia ter ficado meio chorosa depois do telefonema. Não fossem tantas as barreiras entre eles, teria estendido uma caixinha de lenços de papel. Deixou-a no aeroporto sem dizer nada além do valor da corrida. Ela desceu do táxi com um ar inescrutável e glacial. Mas também, o que ele esperava? Que ela lhe dispensasse algo além disso? Sim, ele percebeu que esperava. Não sabia por quê.

Fez várias corridas depois daquela. Um dia normal. Aos poucos foi se esquecendo da frieza da moça brasileira e do sentimento de frustração que isso provocou nele. De volta ao quarto em que morava, dormiu com o caderno de esportes sobre o peito e uma cerveja na mão.

No dia seguinte, domingo, resolveu não trabalhar. Ouviu na rádio meteorológica que a temperatura começaria a despencar a partir daquele dia. Fulvio ficava um pouco deprimido quando o outono atravessava as fronteiras do inverno. Pelo menos nesses primeiros dias em que os ventos da Sibéria invadiam a cidade. Era como se tivesse que se preparar para um longa caminhada pelas trevas. Passou o dia debaixo das cobertas, dormindo e acordando, numa luta inútil contra a melancolia. No fim da tarde, ligou a televisão no noticiário.

Assistiu sem interesse a uma reportagem sobre um grupo de manifestantes que reivindicava melhores condições no sistema de saúde pública. Então, uma notícia mais dramática. No aeroporto internacional do Rio de Janeiro, um avião da Lufthansa derrapara na pista, depois de um pouso forçado, batendo na torre de comando. Não houve feridos, mas um passageiro alemão sofreu um ataque cardíaco e morreu. O voo viera de Berlim, com escala em Frankfurt. O piloto, brasileiro, era entrevistado pela tv local, mas só a voz da repórter alemã era ouvida, narrando apressada como se temesse que o tamanho de suas frases ultrapassasse o tempo da reportagem. Fulvio percebeu, na matéria, um tom de recriminação, como se "a culpa" fosse do Brasil. Haveria uma celeuma diplomática por isso? Ou talvez fosse só sua velha mania. Há muito tempo decidira não se colocar mais na posição de vítima, de imigrante injustiçado. Mas era só se descuidar que caía nessa armadilha.

Enquanto os lábios do piloto se moviam e a voz da repórter alemã disparava informações num ritmo quase selvagem, via-se ao fundo os passageiros desembarcando, cercados de jornalistas e flashes. A câmera se aproximou deles. Alguns eram recebidos aos prantos. Outros seguiam apressados. E, em meio a essa confusão, lá estava a moça que ele levara ao aeroporto no dia anterior, em seu conjunto cinza. Ela andava abraçada a uma mulher mais velha e Fulvio levou uma fração de segundo para constatar que essa pessoa era Clea. De pé no meio do quarto, com o controle remoto na mão, ele esperou que a cena se repetisse, mas a notícia do incidente deu lugar a um mapa da Alemanha. A previsão do tempo anunciava a queda nos termômetros e o apresentador bem humorado, sugeria que todos tirassem seus casacos pesados do armário, pois este ano o inverno chegaria mais cedo e seria o pior dos últimos vinte e cinco anos.

Lá fora, a noite ia ocupando os espaços vazios. O silêncio do domingo se acentuava. Fulvio desligou a televisão sem entender o que sentia. Era como se, de um segundo para o outro, tivesse envelhecido muitos anos. Mas uma onda de resignação parecia emanar dos objetos do quarto, da casa que o circundava, do bairro todo, uma espécie de anestésico. Ligou o rádio na sua estação favorita e adormeceu embalado pela voz carinhosa que rezava sobre o frio de amanhã.

domingo, 21 de junho de 2009

AUGUSTO

Encontrei-me com Augusto poucos dias antes do acidente. Nada indicava o que estava para acontecer. Mas afinal, o que poderia indicar? De que forma o destino nos avisa que a vida de nosso melhor amigo terminará num desastre de carro, numa madrugada escura, na curva perigosa de uma estrada? Ainda assim, procurava localizar nesse encontro algo que anunciasse o fim, para que eu pudesse justificar meu sentimento de culpa de uma forma mais concreta, e não só pelo fato de saber seu segredo.

A sala do velório estava cheia. Além da família e dos amigos, várias figuras proeminentes da área jurídica. Eu ouvia amortecida os comentários praticamente burocráticos sobre o grande juiz que a comunidade havia perdido, sobre esse e aquele veredicto que ele pronunciara com tanto brilhantismo, sobre sua noção de responsabilidade social. Era óbvio para mim que só estavam lá por que se sentiam obrigados a comparecer. Eu me aproveitava de meu papel de promotora para esconder minha dor. Mas minhas palavras pareciam cair da boca e rolar pelo chão. Ao me dar conta disso, comecei a pronunciar frases mais longas e contundentes, adotando um tom quase autoritário. Ainda assim, via minhas mensagens despencando pelo caminho.

A presença de Augusto nunca era inteira. Mantinha uma expressão remota que sempre me fazia pensar no que ele havia feito com uma parte de si.

Deitado no caixão, parecia finalmente revelar essa porção secreta, enquanto todo o resto se ocultava. O que se via agora era um espaço vazio que ele devia ter reservado para preencher com algo que a vida nunca lhe dera. Quem sabe a morte lhe faria esse favor.

Era reticente em tudo, até quando me revelou seu segredo: “Meu sonho é ser uma mulher”. Seu tom era tão distante que parecia estar falando entre aspas, imitando um personagem do cinema. Contou-me que de tempos em tempos, comunicava à esposa que precisava viajar a trabalho e, com esse álibi se trancava num quarto de hotel e passava os dias vestido de mulher. Com os olhos vidrados pelo excesso de conhaque, explicou-me que o tempo sofria uma alteração impressionante enquanto admirava seu rosto maquiado no espelho. Não fazia isso para se encontrar com outros homens, ele disse, mas pelo prazer da transformação. Eu o imaginava mais belo do que já era, uma versão eloquente de si mesmo, realizando gestos de forma teatral: consultando o relógio, chamando um táxi, acendendo um cigarro, tirando um fio de cabelo dos lábios pintados.

Afastei-me do caixão mais introspectiva do que triste.

Durante semanas, eu saía do trabalho e andava pela cidade sem existir, como um borrão que se desloca de um ponto aleatório a outro qualquer. Foi a forma que encontrei para não ouvir o que sentia. Chegava a me perder pelas ruas, mas prosseguia em meu deslocamento, na esperança de que essas alternâncias entre o perder-me e o achar-me pudessem despertar qualquer coisa em mim.

Então comecei a ver Augusto refletido em vitrines, janelas de casas e párabrisas de carros, andando apressado e depois sumindo. Foi quando decidi conter o choro. Penso que as lágrimas podem levar embora o que ficou de Augusto. Agora aguardo ansiosa pelo momento em que meu corpo começará a dar os primeiros sinais da transmutação. Sei que pouco a pouco, irei me transformar nele.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

PLANO DE GOVERNO

Lêda deixou o prédio de escritórios à meia-noite, sem nem se despedir das colegas da equipe de limpeza. Seus passos eram rápidos e curtos, incertos, como se estivesse no limite entre correr e andar. Os cabelos grisalhos e desgrenhados voavam ao vento.

Abriu a bolsa em busca de um cigarro e nesse instante tropeçou, derrubando tudo na calçada. O nariz escorria. Recolheu suas coisas como uma ladra, esquecendo-se da vontade de fumar.

Enfiou a mão no bolso lateral da calça, conferindo se havia mesmo trazido o passe de ônibus, e seus dedos fisgaram sem querer a chave da jaula dos híbridos. Lembrou-se da carta que recebera naquela manhã. Havia chegado a hora de se separar das criaturas. O governo agradecia sua colaboração: mais uma etapa do teste fora concluída com sucesso; a ciência, o país, o mundo todo lucraria com o resultado daquela experiência. O Instituto Biológico lhe dava um prazo de cinco dias para devolver os híbridos e recolher seu prêmio em dinheiro. Assim que leu a notificação, recolocou-a no envelope e procurou ignorá-la.

O fato é que se afeiçoara a eles e só se dava conta disso agora. O que seria de sua vida sem aqueles dois pares de olhos esbugalhados a fitá-la docemente? Que música poderia substituir o estranho e melodioso riso que aqueles lábios quase reptilianos emitiam a qualquer gesto seu? Sem eles, voltaria a não sorrir mais, a arrastar os chinelos pela casa, a sustentar com dificuldade o peso que lhe caía sobre as costas. Nem a viuvez se mostrara tão amarga quanto o que estava por vir. O folheto do "Programa De Desenvolvimento De Híbridos No Ambiente Doméstico" não alertava aos voluntários sobre os riscos de se criar vínculos.

Voltou-lhe a vontade de fumar. Achou um cigarro amassado entre as páginas da caderneta de telefones e o acendeu, encolhida no ângulo formado pelas paredes de um prédio. Parou ali. Cabisbaixa, só o braço se movia, levando o cigarro à boca, e voltando à posição inicial, pendendo pesadamente ao longo do corpo como se segurasse uma pedra. Não era dada a reflexões complicadas, mas pensou com cinismo no lucro que o mundo teria com a sua participação no programa, e no prejuízo que ela levava. Que ficassem com a maldita recompensa, uma miséria com a qual só conseguiria comprar uma televisão nova. O lucro do país... o lucro da humanidade... o avanço da ciência... Soltava a fumaça sobre esses slogans, querendo neutralizá-los com suas baforadas.

O cigarro já se resumira a um toco de filtro chamuscado. Leda resolveu se desencostar da parede fria e andou. Caminhava agora com pesar. Um silêncio se instalava em cada célula de seu corpo. Embotada e muda, percorreu a avenida até o fim, e foi seguindo aleatoriamente por caminhos que não conhecia. Foi dar num bairro residencial. As janelas derramavam a luz monótona dos televisores. Ninguém nas ruas. Prosseguiu. As casas iam ficando para trás. Muros altos e portões de ferro indicavam que se encontrava agora numa área industrial. Seus pés latejavam, estava exausta. Parou encurvada, as mãos nos joelhos.

A poucos metros de onde estava, viu um canto escuro, um vão onde sacos de lixo se acumulavam. Sentou-se ali. Era confortável e o vento não a atingia. O cansaço das pernas se espalhou pelo corpo inteiro e Leda se aconchegou por entre os sacos, deixando só a cabeça descoberta. Antes de adormecer, lembrou-se dos híbridos.

Muitos foram os cantos em que se aninhou nas noites seguintes. Instintivamente, procurava não repetir os lugares, mas talvez estivesse repetindo, andando em círculos, não sabia. Não queria mais saber.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

NOITES BRANCAS

"Preciso refletir direito hoje", murmurou Levi ao se deitar. Com os fatos dispostos no espaço plano do teto, apagou o abajur. Ao seu lado, a companheira de tantos anos dormia, alheia ao seu tormento. Apenas gostava dela. O amor que acabara de descobrir não era brando como aquele que o levara a se casar com quem agora via apenas como uma colega de trabalho. Não. O novo amor tinha a violência das descargas elétricas, a fúria de um navio em chamas, e o enchia de ciúmes, saudades e vendavais. Embora tentado, Levi vacilava: esses voos poderiam lançá-lo a alturas jamais atingidas. Mas eram as alturas da realidade e sabia bem que, até agora, sua vida não passara de ficção.

Seus olhos deixaram de fitar o teto, e percorriam agora os contornos incertos da cômoda, do computador sobre a mesa, da porta entreaberta. Envoltas por essa penumbra, as linhas assumiam novos ângulos, criando formas abstratas, projeções de seus pensamentos tortuosos. Outra madrugada pela frente com a mesma promessa de paralisia dos grandes engarrafamentos.

Mais uma vez, viu-se estático na imobilidade da memória, relembrando os encontros clandestinos, os diálogos, cartas, mensagens. Repassava cena por cena sem extrair delas uma rota de fuga. Pensava em círculos. A dolorosa constatação de que o mal estar não o deixaria tão cedo, como havia pensado ingenuamente no início, só acentuava seu desespero. Aceitar o fato de que iria sofrer por muitos meses, caso não tomasse uma decisão, poderia atenuar a dor. Assim, procurou fazer esse exercício por alguns minutos. Mas logo foi interrompido pela grande pergunta que tornava suas noites cada vez mais brancas e solitárias: por que não abandonava tudo e tentava ser feliz?

Uma ambulância riscou o silêncio da madrugada com seu grito vermelho e linear. Muito longe dali, um cachorro latia. A distância percorrida por esses sons lembrava-o de que se sentia sem pernas para ir de encontro à felicidade que acenava tão próxima. Faltava-lhe a coragem de comunicar a sua mulher que descobrira o amor, e que não era por ela, mas por outra com quem vinha se encontrando há meses; faltava-lhe a disposição de mudar tudo, de recomeçar, de correr novos riscos. As respostas lhe vinham como tapas.

Normalmente, as elucubrações se esgotavam, deixando-lhe no céu da boca uma palavra que se repetia como um mantra: covarde... covarde... Então caía num torpor que não poderia ser chamado de sono. Poucas horas depois, ou talvez alguns minutos, acordava com o despertador que mais parecia vociferar: "covarde". Estava assim há duas semanas, sem sinal de melhora, despencando cada vez mais a cada madrugada. De certa forma, sabia que, se não fizesse alguma coisa, esse sofrimento se transformaria em um câncer, uma parada cardíaca, ou um salto mortal pela janela do apartamento. Ainda eram três da manhã. Pensava furiosamente.

Levi, sentindo-se sem pernas, levantou-se e foi ao banheiro. Parado em frente à pia, travou um duelo mudo com sua imagem no espelho. Correu os dedos pela barba. Quantos medos ela esconderia? Seus olhos negros também acusavam sua covardia. Então, por um instante, viu a si mesmo refletido de costas. Pôde ver sua própria nuca, a gola do pijama, os ombros. Primeiro, sem pernas. Agora, isso.

Com a mão trêmula, abriu a torneira. Molhou o rosto várias vezes e voltou a se ver de frente no espelho. Pronunciou lenta e gravemente: "covarde". O primeiro soluço desencadeou um pranto grotesco. A água continuava a correr. Há quantos anos não chorava? Espasmos se sucediam como abalos sísmicos, provenientes de alguma caverna que então se abria. Ondas negras lhe vinham da garganta para os olhos. Por cerca de meia hora ficou tomado por essa mistura morna de alívio e pena de si mesmo, jorrando sua dor sob a forma de lágrimas e raios invisíveis. Aos poucos, a explosão foi dando lugar a um cessar fogo, e Levi começou a respirar normalmente.

Entrou no box e regulou a água numa temperatura agradável. Com a cabeça inclinada para trás, deixou que o jato caísse sobre sua testa, removendo a tensão do rosto. Entregou-se a um silêncio que finalmente nascia, dentro e fora. Devia estar amanhecendo. Decidiu tirar a barba.

sábado, 21 de março de 2009

NA DENSIDADE DO ESPAÇO


Lidia despertou do sono induzido. Esperava encontrar à sua volta os objetos do dormitório da base espacial na terra, mas logo identificou o interior da nave. Os gases tranquilizantes emitidos na câmara de sono não deixaram efeitos colaterais. Lúcida, sentia-se como se tivesse dormido só algumas horas à tarde, e não por cinco meses de hibernação.
Sabia que a população na terra não acompanhava hipnotizada a sua jornada. Expedições a Vênus eram mais do que corriqueiras no programa espacial. Além disso, tinha consciência de que não era a primeira mulher a pilotar sozinha uma nave. Mas era a sua primeira missão e isso significava tudo para ela.

Sentada agora em frente ao painel de comando, conferiu tabelas de variação atmosférica, comparou dados de outras expedições com as leituras feitas pela nova sonda e estudou com calma os relatórios enviados durante os meses em que dormia. Informou à base os resultados dos testes feitos pelos equipamentos desenvolvidos especialmente para aquela etapa do programa. Só lhe cabia, agora, colher aquilo que os cientistas vinham chamando de "algas invasoras". Acionou a chave de ignição do rastreador e aguardou. Foi quando levantou a cabeça e olhou para a escotilha, vendo Vênus pela primeira vez.

Era exatamente como as centenas de imagens que já tinha visto. Mas o que satélite algum jamais havia reproduzido nas fotos era o efeito hipnótico provocado por uma luminosidade trêmula que cobria a superfície do planeta. E Lidia pôde perceber também que as nuvens riscavam o céu em velocidades diferentes, como se realizassem uma coreografia orquestrada pelos ventos espaciais. A cena se abria num sorriso e o universo todo silenciava, numa reverência cósmica ao espetáculo. Foi tomada de uma certeza de que era reconhecida e amada em toda a sua totalidade pelo corpo celeste que ali se apresentava. E não era mais sangue que corria em suas veias, mas uma vibração morna que a dilatava de prazer, serenidade e uma estranha sabedoria. Divinizava-se.

Lidia nem se deu conta de que o rastreador estava pronto para ser operado. Nem que chorava. Tentou se concentrar na questão da coleta de algas invasoras, na sua missão, mas não conseguia mais se mover. Precisou fechar os olhos. O impacto daquela cena, pensou, era algo para ser compartilhado com alguém. Sozinha, seria fulminada pela fúria de seus próprios pensamentos.

Ainda de olhos fechados, desejou estar na terra. Poderia abortar a missão, e retornar para a câmara de sono. Em casa teria com quem dividir o que viu. Mas num instante de perplexidade, constatou que não tinha ninguém na terra. Tornara-se astronauta justamente por isso. Mantinha ligações superficiais com os colegas da base, não era casada e sua família toda se fora. Não construíra laços profundos o bastante para que alguém lhe desse ouvidos. Continuou a chorar, mas agora de olhos abertos, deixando que o planeta se inscrevesse na região mais funda de seu cérebro. E soube o que fazer.

A sequência de comandos era bem simples, fora repetida dezenas de vezes nas simulações de emergência. Não hesitou: digitou os códigos como se estivesse apenas acendendo uma lâmpada. O teto da cápsula se abriu rápido e silencioso deslizar, e Lidia desafivelou o cinto que a prendia à cadeira. Sugada pela densidade do espaço, mergulhou na atmosfera gasosa de braços abertos, sabendo que em poucos segundos seria consumida pela radiação. Ainda assim, sorria, pois agora tinha Vênus.

sábado, 14 de março de 2009

NA SOLIDÃO DO CORPO

Vivian e Leonardo se conheceram na faculdade de Sociologia. Abraçavam os mesmos ideais libertários, consideravam-se avançados e transgressivos. Casados sob a égide do que chamavam de "relação aberta" e envaidecidos com a própria ousadia, olhavam com um cinismo discreto para os amigos mais convencionais. Sentiam-se à frente de seu tempo uma vez que se proclamavam seguidores de um existencialismo de vanguarda que só eles conheciam e adeptos de relações inomináveis e sem compromisso.

Mantiveram inofensivos casos extra-conjugais durante todo o casamento. Falavam deles como se não passassem de balões de gás voando pelo ar. O importante era manter esse compromisso com a falta de compromisso, já que abominavam as convenções. Vivian se empenhava em ser a mais intrépida no exercício dessa modernidade. Tinha amantes em todos os ambientes que frequentava e não fazia o menor esforço em ocultá-los de Leonardo. Era sua forma de tentar impressioná-lo. Ele, por sua vez, sempre fora discreto.

Mas no sexto ano, essa liberalidade adquiriu contornos inesperados, erguendo um muro entre eles, como que destruindo a velha ponte de acesso. Isolados em suas vidas paralelas e cada vez mais intensas, negligenciavam o próprio casamento. Vivian notou uma mudança sutil no semblante do marido. Algo triste e misterioso obscurecia seu olhar, moldava seu sorriso numa curva incerta. Provavelmente estaria apaixonado por uma de suas aventuras, ela pensou. Incomodada e a sós com seus cálculos, concluiu que ele quebrara o pacto, tendo se envolvido com outra mulher. Para despertar o interesse de Leonardo, passou a se mostrar mais e mais aventureira, numa tentativa de expor ostensivamente o que vinha aperfeiçoando ao longo daqueles anos: o desapego. Não escondia mais nada. Permitia até que seu novo amante telefonasse livremente para o número de casa. Mas Leonardo não reagia e aos poucos foi deixando de lhe dirigir o olhar, recolhido num silêncio duro. A "outra" devia estar manipulando seus sentimentos, Vivian intuía amarga de ciúmes. Assim, disfarçando o ódio e o rancor, tratava-o como a um velho amigo, com diplomacia e um certo distanciamento. Um abismo de sentimentos "antiquados" e "tradicionais" se alargava entre eles.

Então, numa noite de segunda-feira, Vivian chegou em casa e se deparou com gavetas e armários abertos, semi esvaziados. Leonardo partira, levando tudo que era seu. Um bilhete sobre a mesa da sala dizia: "Mais uma gota do seu desprezo, e morro. Adeus".

domingo, 1 de março de 2009

UMA LUVA


Abri a caixa e vi um par de luvas pretas, o presente ideal para aquele inverno londrino. Eram de pelica e forradas com pelo de esquilo: leveza e acolhimento. Eu precisava daquele calor. Enviadas para o meu aniversário de 22 anos, as luvas caíram como uma luva, uma redundância que me deliciava. Calcei-as imediatamente. O primeiro contato da pele com o pelo revelou que tudo entre nós daria certo por todos os invernos que viriam pela frente. Envelheceríamos juntos. Morreríamos juntos.

As mãos deslizavam facilmente pelo forro felpudo. Eu juntava e abria os dedos para testar a flexibilidade e a fineza do material, dobrava as juntas para sentir o quanto era elástico. Uma segunda pele, um caso de amor.

Só tirava a da mão direita para fumar, e a mantinha no bolso da jaqueta. E num desses intervalos para o cigarro, por algum descuido, ela caiu sem que eu notasse. Constatar a perda congelou meu passo. Olhei ao redor, voltei algumas quadras, o coração exangue. Sumiu. Não podia ser. Foram só dois dias de uso, contato, envolvimento. Por que me abandonara assim, tão levianamente, tão cedo? A luva esquerda continuava ali, acentuando ainda mais a ausência da direita. Para minimizar a frustração, guardei aqueles restos mortais na mochila. Decerto, também lhe doía um luto. Era melhor que não trocássemos mais olhares, para não lembrar um ao outro o que nos faltava. Mas não choramos.

Por vários dias andei triste, com as mãos descalçadas e expostas a um dezembro de ventos gélidos e melancólicos. Esforcei-me para esquecer a maciez que me amparara por um período tão curto e feliz. Mas consegui. Passada a dor, comprei um par barato numa feirinha, estilo militar: metade dos dedos ficava para fora, por isso não era preciso tirar para fumar ou escrever cartas. Essas luvinhas nem de longe ofereciam a ternura do pelo de esquilo, muito menos a proteção da pelica. Por isso, se as perdesse, pouco me importaria.

Quanto aos amores que caíram do bolso assim, sem aviso prévio, foram vários. O acolhimento perdido é bem maior. E não é só a mão que fica exposta à agressiva solidão do mundo, mas a alma inteira. São necessárias semanas, meses para refazer a camada protetora. E com uma luva não se mantém hipnóticos e infindáveis diálogos internos. Um amor perdido implica no cessar de um idioma mental que só você é capaz de entender. A musicalidade que corre pelas veias silencia. Morre-se vivo, de supetão, sem uma gota desse outro sangue. E se chora de verdade.

Mas vi com o tempo que um amor perdido não fica eternamente jogado em uma sarjeta qualquer de Londres. Ele é como a luva direita querendo se fazer achada, que brilha vez ou outra, mesmo que ilusoriamente, em um novo e inesperado par de olhos. Ainda que se perca, desista ou fuja, essa luva reaparece. É a mesma, sempre ela. Acolhedora. Morreremos juntos.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

FÚRIA REPRIMIDA

diálogo mudo
impresso
na pele maltratada do mar.

silêncios contundentes.

encosto na camada de petróleo
do último vazamento.

e afundamos juntos
num contêiner.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

ENTREATO

Talvez, agora que estou parado
escute melhor a corrente marítima,
a taquicardia.

Talvez enxergue com clareza
o desfile de enganos
que derrapa na curva
molhada.

É possível que eu entenda
que a indiferença
não passa de uma ferramenta de manipulação.

O silêncio revela os mistérios
trancados nesse cofre.
Talvez agora tranque os meus.

O futuro promete noites mais amenas.
Tudo indica.
Basta ficar quieto. Parado.

A ousadia da boca fechada diante da tropa de choque.

Talvez agora você saiba.
Talvez.

Talvez suspeite que a vítima é você.

NA FLEXIBILIDADE DA HORA

Um monge circula pela sala, farfalhando o tecido de suas vestes complicadas. Acende todos os incensos. Parece flutuar. O início da cerimônia é marcado pelo soar de um sino. Depois, silêncio. Faço a reverência e me acomodo na almofada redonda, azul marinho, de frente para a parede. A posição de lótus é impossível para mim, então cruzo as pernas normalmente.

Parto do pressuposto de que serão duas sessões de trinta minutos, com um intervalo de dez para a meditação andando, como sempre foi. Inspiro profundamente e solto todo o ar. A respiração agora é abdominal, algo que me tranquiliza no ato. De olhos pousados num ângulo de quarenta e cinco graus vejo a parede à minha frente, na penumbra amarelada. Espero conseguir, nessa primeira meia hora manter a atenção voltada para o ato de respirar pelo máximo de tempo possível. Alguns segundos, talvez cinco, dez. Ainda é pouco, mas suficiente para um vislumbre da iluminação.

Os pensamentos são como macacos, pulam de galho em galho. Segundo as orientações, detectamos o que está roubando nossa concentração: uma lembrança, um sentimento, uma música, um conflito, qualquer coisa. Em seguida, com suavidade, colocamos um ponto final no assunto e voltamos o foco para o ar que entra, para o ar que sai, para a temperatura desses ventos, para os batimentos cardíacos. E ali procuramos ficar.

Cheguei agitado dessa vez. Não meditava há alguns anos. E os últimos fatos de minha vida haviam me colocado num estado de agitação constante. Era isso que eu trazia para aquela tarde de incensos, silêncios e paz. Por isso, aos primeiros sintomas de relaxamento, o sono veio. Dormir não faz parte dessa prática, mas penso que talvez seja necessário apagar por alguns instantes para conseguir realizar o exercício. Me entrego. A cabeça cai para o lado esquerdo. Que nenhum monge perceba. Ele viria me acordar. Desperto. Focalizo novamente. E, dessa forma, alterno concentração, cochilos proibidos com um fluxo desenfreado de pensamentos.

No decorrer dessa meia hora alcanço algumas vezes o estado desejado: o não pensar. A ausência de pensamentos abre um patamar diferente no tempo. Esses pouquíssimos segundos de silêncio mental se esparramam feito um lago imenso, experimento o bálsamo da eternidade. Mas isso logo me escapa. Essa suavidade é logo sequestrada por mais uma onda de reflexões. A idéia é não reprimi-la, mas observar por alguns segundos o que vem à tona. São camadas que se levantam. Conteúdos que emergem das profundezas.

Então, o rufar surdo de um tambor. A meia hora se aproxima do fim. Os últimos cinco minutos são preenchidos por esses golpes graves, seguidos de algo que soa como dois objetos de madeira se chocando num ritmo programado. Por fim, o sino anuncia o término. Os participantes fazem a reverência ao Buda interior e se levantam.

Penso então que a caminhada meditativa começaria naquele instante. Mas não. Vejo todos levarem suas respectivas almofadas para o armário e calçarem seus sapatos para ir embora. Achei intrigante. Normalmente eram duas sessões de meia hora. Trinta minutos era o máximo que eu suportava, e o intervalo sempre me preparava para a próxima sessão. Teriam alterado o procedimento? Então, vi no relógio que sim, haviam alterado tudo. O intervalo entre uma meditação e outra não fora feito. Uma hora de meditação com sabor de trinta minutos. Como assim?

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

GARGANTA

ligue os pontos
pintar losangos
só um esboço se revela.

mas, brusca aventura
pincelada acidental

e a cena certa
abrupta
sai da garganta inflamada
aberta

FLASH

O relâmpago na sala
observa antes de partir
nossos corpos carbonizados.

Ainda com os copos nas mãos
as bocas em plenas palavras
atuávamos:

a hipocrisia a inclinar sua cabeça
a indignação a roubar-me a lógica.

Que venha a próxima tempestade.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

AUTO-IMPEDIMENTO

aqui
uma fração de segundo
estala no ar.

semi-breve
semi-quase.

pode ser o metal do navio
se contraindo
no frio da noite.

mas o que vejo
são as suas manobras perigosas
na mancha de óleo
que você mesmo cria
e alastra
para não chegar
aqui

CILADA ( para L )

Também não escapo.

ANTES DO SAQUEAMENTO

A bandeira hasteada
espalha uma indiferença
de mercúrio e resignação
a
perder
de
vista.

É agora, navio pirata:
vem!

O ATO DE ESPERAR

Posso entrar? Posso sair? Até quando nessa sala de espera? Procuro resignificar as páginas da mesma revista, a cor das paredes, renovar o que já foi esgotado pelo olhar; redescobrir os verdes, beges e brancos. Simulo novo espanto diante do antigo fiapo no carpete: ainda aqui? eu também. Barthes implacável: esperar é isso mesmo, é quase não ser mais, é fingir a si mesmo que se está desempenhando uma ação, que se está vivendo. Filamentos de nadas me conectam às atividades insípidas que realizo. Crio vapores, sílabas tênues, pedaços de barbante. O tempo derrama milésimos de segundo a conta gotas enquanto o resto do mundo dorme ou morre furiosamente. Mas é uma força que se desenvolve aqui mesmo, que viabiliza a aceitação desse ritmo paralítico. Uma força tão pesada que me achata e transforma em pluma.

sábado, 24 de janeiro de 2009

CENAS AÉREAS

O que existe entre a minha janela e a sua, são cenas aéreas. Uma paisagem estática dominada pela rede elétrica que nos conecta. Você também me vigia? Vê se acendo a luz ou estendo uma bandeira vermelha? Também confere variações de pressão e temperatura? O que separa sua janela da minha é um oceano de silêncio e pontos de interrogação. Uma piscadela que paira no ar. Veja como tento chegar aí como um equilibrista. Quem teve a ousadia de traçar essa linha reta não pensou nas conseqüências, nas transcendências. No disparate. Vamos ao que interessa?

domingo, 18 de janeiro de 2009

O PENSAMENTO VAGA NO VAGÃO DO METRÔ

Deposito em câmera lenta a xícrinha no pires e vejo passar a seguinte frase estampada em letras arredondadas numa camiseta verde: conhece-te a ti mesmo. Não que eu estivesse em busca de mensagens, mas sei quando elas se ofertam, como uma bênção. Olhei para a porta de saída do Conjunto Nacional, vinha uma luz ofuscante. Estava em pleno raciocínio: o possível jogo histérico de um novo amor que surgia no horizonte. Focado no outro, na relação, no nós, etc. Mas a frase me levou a dar as costas para o balcão do café e seguir andando. Sem rumo. Para me perder de vez? Fui.

Desço correndo as escadas da primeira estação de metrô que vejo, como quem não pode perder o trem. E ele estava lá, sorrindo de portas abertas, esperava por mim. Nem me sentei. Era uma euforia que me mantinha de pé, de olhos grudados no meu reflexo na janela. Uma felicidade quase macabra de tão nova. Feliz por finalmente ter me libertado de um certo fluxo de pensamentos que só conduziam a dúvidas, buracos negros, ambivalências. Agora desvio para uma outra pista, mais veloz, mais reta, que promete paradas ensolaradas.

O trem parte com sua invejável determinação: as portas simplesmente se fecham e o arranque repentino faz com que os passageiros se inclinem para trás, todos no mesmo ângulo. Estação não sei o que lá, avisou a voz depois de quase um minuto de disparada. Tempo esse em que toquei a superfície do primeiro pensamento, mas o abre porta, fecha porta na estação seguinte interrompeu meu prelúdio. Ao próximo arranque, retomo o fio da meada. Onde parei mesmo? Sim, na superfície lisa da auto-descoberta. Arranho a camada inicial e logo desvendo o primeiro enigma: uma coisa difícil de aceitar. Mas agora é tarde, as revelações virão uma atrás da outra, mais rápidas até que a seqüência de estações. Mal pisco e já estou na última parada. Desembarco e tomo o trem no sentido contrário. Farei a mesma ida e volta tantas vezes quantas forem necessárias.

O difícil é retomar o fio condutor. Vamos ver... A última reflexão tratava da minha incapacidade de manter relações estáveis por muito tempo. Sim, porque eu acredito que estou fadado ao fracasso. Se o sucesso se insinua, sou o primeiro a sabotar tudo com meu sarcasmo de quinta categoria. Só para justificar o final trágico que só pode estar tatuado no meu código genético. Será? Preciso estudar melhor esse ponto. O trem voa. Esse fluxo inesgotável de auto-revelações é interrompido por uma vista aérea que se descortina de repente: saímos de debaixo da terra. Vejo prédios, auto-pistas, fábricas. Acho que estou na zona leste. Respiro. Mergulhamos novamente na terra.

Penso em hidrocor preta que a saída desse dilema incrustado na memória pode ser demorada e dolorosa, e não instantânea como o trem que é cuspido do buraco sem mais nem menos. E foi justamente isso que ele havia sugerido em letras azuladas quando caminhávamos nas areias do Guarujá, que eu demoraria anos para me safar dessa. "Só com muita análise, baby. Boa sorte". Mas dos meus planos eu sei. Buscarei uma nova alquimia, quero resolver depressa tudo, tudo, tudo, sem ser tão burocrático. Espere só para ver.

Já é de noite. Desço em Santana, no corre corre do comércio, terminal de ônibus, fumaça de espetinho. Vontade de sair correndo para o Horto, me enfiar no meio da mata e ficar encolhido ao lado de um pântano verde, conversar com as antas. Mas não, olho para os trilhos suspensos do metrô, a estação acinzentada. Tenho que cruzar o rio de volta para o centro. Sei que verei de longe a roda do Playcenter piscando, refletida nas águas encardidas dessa saudade lancinante.

sábado, 10 de janeiro de 2009

VARIAÇÕES DE HUMOR


Sonhei que percorríamos de carro a orla da cidade de Santos, cidade que digo odiar só para fazer um gênero meio gauche. Do José Menino à Ponta da Praia, o rádio desligado. Um inverno chuvoso, o de sempre, cobria com sua nota triste a fila de navios cargueiros no horizonte. Procissão cinzenta. Você perscrutava meu coração, eu devorava balas de hortelã com o ar mais prosaico do mundo, na intenção de gostar. Mas não gostava. Fiquei em silêncio, absorvendo suas explicações: ali começa a Avenida Ana Costa, ali é o cineminha. "Eu sei disso", mas você explica mesmo assim, porque quer que eu veja com seus olhos o que já conheço. Decido ser mais misterioso, mas acabo descambando para um hermetismo glacial. Nunca acerto a dose. Justamente por isso não arrisco, fico no óbvio. Talvez, um dia, volte a fumar, talvez isso me torne mais expressivo, ou mais sutil. Talvez me jogue nos diários de Sylvia Plath, penso enquanto acompanho os movimentos do limpador do pára-brisa que observa nossa dissimulação. Por que fingimos tanto? Por que começamos todas as nossas frases com "na verdade"? Seria isso um prelúdio para todas as mentiras? Há também uma certa presunção da nossa parte, quando olhamos para fora e apontamos para os prédios tortos, quando contemplamos o mar e o nosso quase amor enviesado. E o que não é dito ganha corpo, solta um bafo quente de embaçar o vidro. Por que a avenida molhada está tão deserta? Por que você me largou naquela calçada com um vaso de antúrios na mão, dizendo que voltava já? Fiquei ensopado, sabia? Mas essa água esverdeada tinha um gosto bom na boca, e algumas gaivotas até pararam para olhar. Quanto ao triângulo amoroso, eu vivo dizendo que você tem medo de trocar o certo pelo incerto. Só isso. Por enquanto, deixemos como está, e apreciemos a paisagem. Veja aquela fila de ciclistas, por exemplo: parecem-se com as suas frases inacabadas. Você fez o retorno numa saída estreita e seguimos para São Vicente. Eu queria subir no mirante da Ilha Porchat e ficar ao seu lado olhando apenas para os seus cabelos negros e desarrumados, ouvir seu sotaque santista se revelar de uma vez por todas. No sonho, assim como na vida real, eu não percebia que você me amava. Conosco, tudo é tão estratégico! Embora eu prefira a transparência, você opta pelas lacunas e mistérios e é assim que o duelo se dá. Não tenho o que esconder por isso invento crimes do passado e me saio melhor. Falo de pessoas que não existem. Saudade do tédio inofensivo de antes de você acontecer. A chuva aperta, o limpador é acionado na velocidade máxima, aquela mais desesperada. Meu coração aperta, perco o fôlego. Acordei olhando para o seu corpo de peixe adormecido.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

IMÓBILE NO QUARTO

Revejo os fatos
com os novos ingredientes:
o verdadeiro nome
a identidade certa,
o refrigerante favorito.
Repito cada frase
tendo em mente
os personagens
que deixamos de ser,
as cenas habilmente dirigidas
pelos dedos perversos do diretor.
Máscaras de um breve carnaval de Veneza
jogadas num canto.
E vou anotando no caderno
um esboço
e outro, etc. etc.
conclusões incompletas entre parênteses.
De acrílico vermelho
e entre aspas
meias-palavras navegam no teto do quarto
retidas pelos fios de um móbile cafona:
verborragia atonal
que se insinua na curva do olhar.
Tudo isso para disfarçar
o que realmente interessa.

BASE MILITAR

Muito se fala do universo feminino, de suas gavetas, caixinhas e penteadeiras. A maternidade, a paixão, as horas em frente ao espelho. Seu mundo interno, os segredos. Tão românticas as damas da corte trocando confidências e risinhos, caçoando de seus pretendentes, tão poderosas justamente por isso. Mas engana-se quem pensa que os homens não recorrem também a um universo paralelo, onde se fortalecem e fazem uma espécie de manutenção da espécie. Um desses refúgios, hoje em dia, é o vestiário masculino. Talvez o principal. Seja ele de um clube, academia de ginástica ou campo de futebol, não importa. É lá que o dna do homem se recicla.

O vestiário masculino encerra uma linguagem própria, raramente pronunciável diante de mães, filhas e esposas. Não por ser obscena, mas simplesmente por se originar de temas avessos às mulheres. Para falar demoradamente sobre carros, pneus e carburadores, um repertório específico de expressões e piadas se faz necessário. Uma musicalidade até. E não imagino mulher alguma no universo disposta a acompanhar esse massante desencadeamento de nadas por mais de cinco minutos. Mas dentro daqueles limites, o nível de empolgação está garantido. Qualquer assunto que faria o gênero oposto revirar os olhos de enfado, ali gera acalorados debates que, misteriosamente, culminam em estrondosas gargalhadas. Mas sem polêmicas. Um acordo tácito de fraternidade ancestral não permite que atmosferas pesadas ou farpas contaminem a rede inquebrantável.

Há os freqüentadores mais antigos que fazem de seu pequeno armário, um baú de valiosas relíquias. Assim como o cão que enterra um osso de estimação na terra, ou o menino que esconde as revistas pornográficas entre uma camiseta e outra, esses mais típicos armazenam um arsenal de bebidas de primeira qualidade. Olavo, do armário à minha direita, nunca deixa de oferecer uma dose de Blue Label quando me encontra. Íbsen, ex campeão de tênis, robusto e octagenário, promove animadas degustações de vodca e aguardentes exóticos pela manhã. A confraria nua, ou enrolada na toalha, saboreia e opina. Troca-se também, sem o menor tom de sigilo, dicas de algum novo prostíbulo, ou daquele mais tradicional que mudou de bairro. Telefones de médicos, doleiros e contrabandistas circulam como numa troca de figurinhas.

Pergunta-se cordialmente como vai a esposa, a mãe, a filha. Mas quando a questão resvala para o universo lúbrico, o tom de voz ganha uma coloração mais solene e secreta. A conversa é de canto, particular. Comenta-se com muita cautela sobre a nova tenista, que é um espetáculo, cuja mãe também foi um estouro na juventude. Seu respectivo pai, marido, ou filho, pode muito bem estar ali, no chuveiro ao lado, então todo cuidado é pouco.

Encerrada a liturgia, a barba feita, a loção aplicada, vestem ares de guerreiros vitoriosos. Uma última olhada no espelho, o sonoro passo de sérios sapatos traduz uma pressa repentina, responsabilidades. Em trovão orgulhoso, o adeus reverbera. Já na saída, uma sombra de insegurança os aguarda, confundindo um pouco o caminhar. Sabem que o poder no mundo está dividido em doses iguais e que uma parcela dele, com seus segredos e estratégias de guerra, se concentra em outras mãos, em outra base militar impenetrável: o vestiário das mulheres.

PODEMOS SER HERÓIS PARA TODO O SEMPRE

O quarto era estreito, minúsculo, acarpetado. Numa parede, a caminha de solteiro encaixada entre dois guarda-roupas que iam do chão ao teto. Na oposta, o aparelho de som, os discos e uma estante de livros. Espartano e sem quadros. Funcional. Seu ocupante, o irmão de minha amiga, nunca estava em casa. E nós nos apoderávamos de sexta a domingo desse corredorzinho, o recanto mais privado do apartamento.

O exíguo espaço, no entanto, encerrava um tesouro sem limites: o álbum Heroes de David Bowie. Impossível tentar descrever a sensação de ouvi-lo pela primeira vez. Quem tem as palavras certas para mapear o impacto de um amor à primeira vista? Ou à primeira audição? Podemos apontar o sabor da novidade e do bem-estar. Mas só. O resto nos escapa, pertence a um sistema sintático e gramatical ainda inédito.

Iconoclasta de si mesmo, Bowie não era só um astro pop, mas toda uma instituição, um novo modo de ver as coisas. Sugeria mil caminhos onde tudo era possível, com a única condição de que se pervertesse a ordem vigente em algo insólito e espetacular. Ao som de Heroes, nossos projetos de futuro, incertos e variáveis, se materializavam de hora em hora no espelho do armário. Apostando em roupas exóticas, maquiagens, poses e truques baratos, decidíamos os personagens que iríamos ser. No mínimo heróis de nossa ópera, que era o que Bowie prometia e proclamava.

Heroes abriu as portas para outros clássicos do Deus, e estendeu um tapete vermelho para discípulos e semi-deuses. Outras bandas, cantores e cantoras passaram a habitar o quarto do irmão de minha amiga, mas Bowie imperava inabalável. O cigarro, o café e as desilusões amorosas eram o combustível de nossas conversas sem fim. Naqueles tolos rituais de adoração e auto-piedade, as paredes que nos separavam do mundo real, alternavam entre invisíveis e sufocantes, conforme o estado de espírito e o assunto abordado.
Faz duas décadas que não entro nesse quarto, e perdi minha amiga de vista. Tenho notícias suas através de terceiros. Seu irmão passou por mim de carro um dia desses e me reconheceu. Acenou pela janela, buzinando. Sei que se casou e não mora mais naquele apartamento. Imagino nosso pequeno templo, hoje, convertido num quarto de passar roupa, ou num depósito de objetos em desuso. Nossos sonhos podem muito bem estar ali num canto cobertos de pó, no fundo de uma gaveta, numa caixa de sapatos, ou espremidos nos sulcos de um disco de David Bowie.

O SOTAQUE DE ODILIA

odilia lê sem entender
uma revista sueca
de moda
encontrada ao pé da escada
consoantes e vogais embaralhadas
mulheres loiras
querendo ser latinas
última moda na Suécia

odilia decide ser loira
e dá de cara
com a vizinha sueca
já quase latina
no elevador
diz bom dia, em português
com um sotaque qualquer

PARA ANNE ENRIGHT ( THE GATHERING )

a voz no rádio repete
e repete
a propaganda alegre e amarga
a tarde toda
o mundo inteiro
a galáxia infinita
pela cambraia florida
o ferro quente desliza
descreve uma curva incerta
queima o dedo esquecido
apalpo meu pescoço
meu braço
as manchas rôxas de anteontem
o quadrado que desce pela garganta
a lembrança
da porta entreaberta
nossos olhos se encontram
num flagrante
sim, eu vi
ríspido instante
o abuso
a luz
que
se
apagava
nos olhos de nossa criança

FUTUROS DESDOBRAMENTOS

Muito bem,
hoje você passa a se chamar Luiz.
Com z mesmo, estilo antigo.
O que faremos de Claudio?
Precisamos alinhar este assunto.

E o que dizer do ensolarado apartamento de esquina
com vista para a Duque de Caxias
e janelas anti-ruído
na insólita tarde de sábado?
( Não preferia o escuro? )
Um plano para o futuro
ou mera exclamação contida?

Encolho-me no banco da frente do carro
numa tentativa desbotada
de manter equilibrado no ar
o jogo cósmico.
Reticências.
Até quando?

Guardanapo dobrado em quatro
palavras deslizam por entre pratos
e copos.
Não há mais espaço para segredos.

Ouça bem:
a questão da identidade
não sairá tão cedo da pauta.
Quero mais uma tônica gelada,
mais uma prova
de que tudo
que se descortinou
continuará
sendo
e se desdobrando.

DESACERTO DE CONTAS

os galhos sem folhas
das árvores de Londres
estremecem
sob a pista falsa
escrita no envelope:
quem disse
que os cálculos
estariam de acordo?
quando o vento gelado
se alastra
por entre as palavras
e o olho desavisado
erra o lado
a curva insípida
do lábio fino
delineado
pelo pincel da mentira
e o acaso
que tropeça sem cerimônia
sob a luz intensa da falta de argumentos,
tenho o ajuste de contas
guardado na manga
para a próxima encarnação
para quem quiser
para o bem geral da corrupção
caso queiram criar elos
beijar homens belos
escovar os cabelos
de mulheres ruivas.
a sabedoria jaz aí
um jogo sujo de pura sinceridade

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

A INTRUSA

Antes de mais nada, deixo bem claro que seu fim é inevitável. Não subestimo sua capacidade de se esquivar e sei até que se diverte com isso. Mas prezo minhas horas de sono e não permitirei que essa situação se prolongue.
Sei que tem predileção pelas horas mais silenciosas da madrugada, quando me encontro em profunda imobilidade. Sua chegada é sorrateira. Ocupado no ofício de sonhar, estou sujeito à sua visita. Ou não seria mais correto dizer "invasão"? Mas ao primeiro roçar de seu corpúsculo em minha perna, as paredes do sonho estremecem, e alguns contornos da realidade se fazem ver, ainda que sutis.
A primeira picada interrompe ou altera quaisquer enredos que eu esteja vivenciando. Se navego por águas translúcidas, sou deslocado para a inércia de um engarrafamento. Um vôo tranqüilo no espaço pode se transformar em mera sensação de inquietude nos membros inferiores. Ou sou levado a abrir os olhos num estalo de susto.
A sucessão de carícias, cócegas e minúsculas mordiscadas compõem um quadro de desagradável intimidade. Não quero você aqui, explorando meus poros e pelos, percorrendo meu calor, bebendo de meu sangue. Enojam-me os pontos vermelhos deixados no lençol, as erupções na pele, rastros de sua voracidade vampírica.
Para o seu aniquilamento, não apelarei a nenhum pó inseticida, mas sim às minhas próprias armas. Farei vigília esta noite até você chegar. Ao primeiro contato, será detida. Então, clique, o golpe fatal de duas unhas que se juntarão num pacto assassino.

MICROPONTO

A trilha para a Praia do Silêncio era íngreme. A mata densa dificultava a descida, mas nada nos impedia de ir. Estávamos em oito. Nesse trecho da caminhada, a maioria já sentia os primeiros sinais. Para mim, nada ainda. Cheguei até a duvidar de que fosse fazer efeito.

Já na praia deserta, sob um sol escaldante, as coisas começaram a acontecer. O ponto de partida foi um estranho frio na barriga seguido de um calafrio nas costas. O componente anfetamínico da fórmula começava a agir. Um início de viagem não muito agradável, mas pelo que me explicaram, era uma etapa inevitável. "Você já decolou?", perguntou Alessandra, que entrava saltitante no mar, jogando água para cima. Reclamei dos calafrios. "Isso muda, você tem que se soltar".

Me soltar? E se meu espírito saísse voando para sempre? Todos riam, e trocavam olhares maravilhados, menos eu. Decerto estavam mais avançados na jornada. Meus calafrios eram cada vez mais fortes, e eu ainda não via motivo para rir. Mas agora era tarde. Então tomei coragem, descruzei os braços e, de peito aberto, permiti que o processo se desenrolasse por conta própria.

Os calafrios se transformaram em ondas de euforia e explosão, que vinham com intervalos cada vez menores, num vai-vem vertiginoso. Para não sucumbir a essa avalanche, levantei-me e fui caminhar.

Andando à beira d'água, notei minha consciência se expandir. Questões discutidas no divã do psicanalista se esgueiraram para uma espécie tela de cinema no espaço da mente. As hélices filosóficas giravam, os pensamentos ganhavam contornos e representações gráficas mutáveis. Eu precisava falar com Deus urgentemente. Por que eu estava no mundo? Quais eram as perspectivas? Mas a aparente lógica mental foi interrompida por um fluxo desgovernado de frases, cores, números e símbolos misteriosos que disparavam por uma via expressa interna. O presente se transformou numa incógnita: seria tudo aquilo uma lembrança? Ou uma projeção futura? Frente a frente, eu me via. Certamente, eu estava enlouquecendo e nunca mais seria o mesmo. Era nisso que consistia a esquizofrenia, o outro lado do espelho. Passaria o resto dos meus dias trancado num hospício, babando, numa camisa de força. Mas um instinto primordial recém descoberto me dizia que talvez essa fosse a oportunidade de desenvolver uma sensibilidade mística. Que o caos e a loucura me invadissem então.

Assim começou a nova etapa. A dissolução mental era nada mais do que a passagem para um estado de conectividade total com as forças da natureza. O tapete de areia murmurava segredos, as folhas das árvores revelavam suas intenções, o canto dos pássaros era prateado. Seria absolutamente natural se Clara Nunes se materializasse ali ao som dos atabaques, se Ney Matogrosso aparecesse no horizonte ou se Iemanjá saísse das águas mágicas. O monolito negro surgiria a qualquer momento, proclamando a nossa odisséia. A espuma risonha das ondas declarava: o fundo do mar abrigava sim o Reino das Águas Claras, o Sítio do Picapau Amarelo, Atlântida. E por que duvidar que seres mais evoluídos de alguma galáxia distante nos observavam com olhos amorosos se eu podia senti-los respirar? À minha volta, o mundo era mais visível, mais intenso. Uma nuvem branquíssima desatou a emitir mensagens de luz em código morse, e logo em seguida o céu inteiro se pôs a piscar também, envolvendo o planeta num frenético tremeluzir colorido.

Então, nuvens negras se reuniram no horizonte, anunciando um temporal. Helô, rindo e chorando, acompanhada de seis réplicas transparentes de si mesma, apontou para cima e disse: "São eles!". Emocionados, aplaudimos e estendemos as mãos para as primeiras gotas de chuva. Mas antes que os deuses invejosos de nossa inocência resolvessem nos buscar prematuramente, juntamos nossas coisas e, batendo as asas, voltamos para casa.

GRAÇA CONCEDIDA

Contratada principalmente por sua simplicidade e simpatia, Edileuza começou imediatamente. Funcionária do período da noite, ela passaria as madrugadas a digitar legendas para o Quanta, o gerador de caracteres da época.

Pela manhã, os arquivos estavam prontos para serem lançados nos filmes. Nossa intrépida digitadora não ia embora enquanto não chegássemos, só para bater um papo durante o cafezinho na copa da produtora. Recebíamos as impressões de sua solitária madrugada, e éramos presenteados com sua alegria em ver alguém de carne e osso para conversar após as longas horas de silêncio. Reservada e discreta, jamais comentava as frases obscenas dos filmes pornôs. Limitava-se a falar dos namorados, com pesar e desesperança. Falava que pedia a Deus que lhe enviasse um bem feinho, pois os bonitos davam muito trabalho. E, pelo que constatávamos, Deus nunca lhe ouvia. Sempre acompanhada dos homens mais bonitos da Freguesia do Ó, Edileuza acenava de longe para nós, envergonhada e tristonha.

Os problemas começaram quando ela se queixou de estar ouvindo vozes na madrugada. Foi ter com a chefe, em caráter ultra-secreto, reclamando de fantasmas que vinham à noite e não a deixavam em paz. Disse que se continuasse assim, pediria as contas. A chefe não levou a sério, mas reparei que Edileuza ostentava um semblante mais sério e assustado pelas manhãs. As conversas matinais na copa já não eram mais as mesmas. Passaram-se duas semanas e Edileuza deu o ultimato: "Com esses fantasmas eu não fico mais". O que nos pareceu uma queixa divertida, configurou-se num problema logístico. Sem Edileuza, ficaríamos pelo menos uma semana para arrumar um digitador que aceitasse trabalhar por aquele salário de fome. E que não tivesse medo de fantasmas. O volume de trabalho havia dobrado, seria um desastre perder Edileuza.

Foi decidido pela direção da produtora chamar um pai de santo. O curandeiro era, de fato, pai de um dos proprietários da firma. Assim, no fim do expediente de uma sexta-feira, ele veio. Chegou com a esposa, ambos demonstrando competência e disposição. Ele saiu do banheiro de roupa branca, cabisbaixo, já tomado pelo espírito do Zé Pelintra. Nós, em círculo, não sabíamos bem o que fazer. Fomos orientados pela esposa a ficar como estávamos, para deixar o espírito à vontade. O pai de santo se aproximou de cada um, murmurando frases ininteligíveis. Deteve-se em Edileuza e pôs a mão em seu ombro. O silêncio que se fez, era interrompido apenas pelo som dos carros que passavam na rua. A realidade em suspensão. Confesso que tive medo. Nosso curandeiro se afastou de Edileuza e foi à sala de legendagem. Ficou lá alguns minutos e voltou calado. Terminada a sessão de limpeza espiritual, fomos à padaria tomar um café. O atual galã de Edileuza já a esperava, todo garboso.

Ela não se queixou mais de fantasmas e voltou a nos receber todas as manhãs com a alegria contida de antigamente. Mas, um dia, Edileuza teve que nos deixar. Seu novo namorado não permitia que ela trabalhasse de madrugada. Ela não se importou, até parecia estar gostando da aparente prova de amor e ciúme do novo candidato que, esse sim, era bem feinho.

TRINTA MINUTOS

Minha família tem o hábito de tomar café da manhã. Todos os dias, religiosamente. Falo da refeição completa, a mesa posta, toalha, louça, talheres. Um ritual matinal que exige a presença de todos os residentes, em que é proibido faltar. Creio que se tem por objetivos a união familiar e a manutenção de uma tradição cuja origem desconheço.
O rito leva algo em torno de meia hora, ou seja, trinta preciosos minutos de sono que eu tinha que abdicar todos os dias antes de ir para o colégio. Daí o meu mau-humor nessa hora. Limitava-me a comer minhas torradas e tomar meu café com leite sem falar ou olhar para ninguém, jurando em silêncio que no dia seguinte me rebelaria.
O banquete matinal me perseguiu até a vida adulta, incorporando-se por conta própria à minha rotina. Por força do hábito? Prazer gastronômico? Ou por ouvir dizer que o café da manhã é a refeição mais importante do dia? Não parava para questionar. Algo maior se impunha.
Mas não ignorava minha admiração, desde pequeno, pelas pessoas que simplesmente não comem nada pela manhã, ou tomam uma xícara rápida de café, de pé mesmo na cozinha. Via-os como seres mais livres. Deviam até ter uma vida melhor que a minha.
Quando comecei a dar aulas, o horário ingrato me obrigava a levantar antes dos primeiros raios de sol, para cumprir o maldito ritual. O primeiro mês se revelou um sacrifício, então resolvi optar por um desjejum relâmpago na padaria mais próxima de casa. Mas logo vi que precisava dos mesmos 30 minutos de sempre, já que a padaria estava sempre cheia àquela hora, e meu café nunca saía no instante que eu queria. Esperar demais não fazia parte do ritual. Ou da mania.
A contragosto, retomei os cafés da manhã em casa. Então, um dia me rebelei. Eu queria e precisava ( e merecia! ) dormir mais. Só eu poderia me proporcionar esses 30 minutos a mais de prazer inconsciente. Substituí a parafernália e o teatro por uma xícara de café instantâneo consumido ao lado do fogão, e uma maçã para a viagem de metrô. Só. Assim, me libertei.
Hoje, ainda preparo fartos cafés da manhã, mas em ocasiões especiais, para convidados e hóspedes. Às vezes, só para mim mesmo, num tributo solene e saudoso à pessoa que, um dia, fui.

domingo, 14 de setembro de 2008

MÁ DIGESTÃO

Lá vem ele de novo. Será que não posso mais ler meu jornal em paz? Eu, no meu banco do calçadão, tenho todo o direito de não ser incomodado. Mas não, todo dia é essa palhaçada: ele tem que passar justo por aqui.
Vou fingir que não vi. Vou grudar os olhos no jornal. Mas como ignorar tanto vigor e juventude concentrados num homem só? E ainda por cima vem correndo, descalço, pela areia da praia. Atleta, que nada. Só quer se exibir. É esse tipo de coisa que me enche de raiva, mas escuto o chato do médico dizendo: "Calma, Seu Vicente, olha o coração".
Será que tomei o remédio hoje? Não posso esquecer a consulta de amanhã. Estou proibido de sair de casa sem protetor solar e esse sujeitinho me vem com um bronzeado de quem passou a manhã inteira torrando no sol. Deve ser um inútil, um vagabundo. Gigolozinho. E esse sorrisinho simpático de quem vai pedir um favor? Que nojo.
Vou virar a cara, olhar para o mar, para os navios cargueiros enfileirados no horizonte, cuja feiúra me consola. Na idade dele, não tive nem um terço desses músculos, dessa saúde. Nem bonito eu fui. Eu, com essa cara, teria conseguido muito mais da vida, principalmente porque tenho instrução. Isso aí não deve saber nem fazer conta. Fadado ao fracasso e não sabe, coitado. Ou melhor, bem feito. Lá vem ele em seu falso brilho. Já vi coisa bem melhor. Asno. Tropeça, tropeça. Cai, miserável.

sábado, 6 de setembro de 2008

UMA BALEIA

Os dedinhos apertavam a caneta com toda força. Traçou uma linha verde no papel. Não satisfeita, fez uma linha paralela e uniu as duas pelas extremidades, fechando um retângulo. Pôs a caneta de volta no estojo e tirou a vermelha. Compenetrada, fez dois pontos no interior do retângulo e disse: “É uma baleia”. Depois, com uma caneta azul claro que pegou no porta lápis, riscou levemente a área em branco do papel, compondo uma teia de linhas finas. “É a piscina”. Como sempre fazia quando terminava um desenho, passou as duas mãozinhas sobre o papel, como se quisesse alisar a superfície ainda mais, ou aplicar uma camada cor de rosa de sua magia pessoal.

PANACÉIA

A torrada fica pronta, é lançada e meu coração dispara sobressaltado. Tenho apenas alguns segundos para aproveitar seu calor. A faca pesa de tanta manteiga. Tudo a postos. Coloco a torrada sobre o prato e aproximo a massa amarela da invisível onda de calor que emana generosa. Encosto a faca no pão e empurro lentamente a manteiga sobre sua crosta alaranjada, apreciando cada etapa do processo de derretimento: do amarelo ao branco ao líquido transparente. O calor é tanto, que a manteiga vai toda embora ainda no meio da torrada. Preciso repetir a operação. Rápido, antes que o calor acabe.

sábado, 30 de agosto de 2008

NUM PISCAR DE OLHOS

Na penumbra do consultório, Rogerio analisa as profundezas de um par de olhos bastante idosos. Através de suas poderosas lentes, constata que não há perigo de glaucoma, catarata, nada. Como sempre. Lurdes apresenta apenas um cansaço na vista, natural na sua idade, mas corre mensalmente para a clínica do Dr. Rogério, temendo... Ficar cega? Nem sabe bem o quê. Talvez seja justamente por isso que retorna religiosamente. Para saber por quê. A conclusão das consultas é sempre positiva, tranqüilizadora, o que não deixa Lurdes mais aliviada.

Agora, ela pede para ser examinada novamente. Em segredo, quer testar-se, desvendar sua aflição. Rogerio repete o ritual de testes resignado. Com o queixo apoiado numa base metálica, Lurdes aguarda o momento mágico em que a luz do aparelho irá se acender e invadir suas pupilas, uma de cada vez. Zás! A luz se acende. São alguns segundos de cegueira, silêncio e um misterioso prazer. O que ele via dentro dela com suas lentes precisas e seus olhos atrevidos? Sua alma? Estaria gostando? Lurdes se entrega ao exame minucioso do jovem médico, sentindo-se penetrada e tomada pelo calor do facho de luz. O veredicto de sempre encerra a consulta. Aflita e sem respostas, ela volta para casa.