terça-feira, 31 de agosto de 2010

FUNK

Daiane, a atendente da pet shop, chegou à loja uma hora antes de abri-la para o mundo. A camiseta branca dizia em letras grandes SANGUE BOM. Ligou o rádio e começou a dançar. Os filhotes de gato e cachorro se espreguiçavam em seus engradados, tentando compreender aquele ser humano que se contorcia, levando uma mão aos lábios para logo em seguida lançar os presentes invisíveis que extraía de lá. Nas gaiolas e nos aquários, as atividades também se iniciavam. "Bom dia, gente", proclamou Daiane no ritmo da música. E aumentou o volume.

Dando prosseguimento à rotina diária, passou um pano no chão. E às nove em ponto ergueu a porta de ferro. Para alguns moradores a abertura da loja tinha um efeito mais decisivo do que o próprio nascer do sol, atingindo a rua em cheio com sua movimentação animal, sua música alta e o ir e vir agitado de Daiane. Era como uma enorme boca que se abria, lançando ao mundo uma louca gargalhada. Oficializava-se assim o verdadeiro início de mais um dia.

Naquela manhã de muito calor, Rodrigo chegou atrasado, sem demonstrar pressa. Não era de transparecer suas aflições, por menores que fossem, um traço de sua personalidade que atraía ainda mais o fascínio de Daiane. Os cachos negros soltos brilhavam aos olhos castanhos da garota. Responsável pelo banho e a tosa dos animais, Rodrigo foi para a área dos tanques, no fundo da loja, com seu passo de leopardo preguiçoso.

-A Dona Violante vem aí. – gritou Daiane por cima da algazarra que ela mesma instaurara. – Hoje é aniversário da Scarlet e ela quer banho, tosa e tingimento pink com azul. Capricha, Rodrigo.

-A Scarlet? Ela ainda está viva? Caramba, aquela poodle deve ter uns 80 anos. Será que aguenta o banho?

-Aguenta, sim, Rodrigo. Aquela lá é dura na queda.

Pretendia estender a conversa, sugerir um chope no fim do dia e finalmente dar o tão preparado bote em Rodrigo. Mas foi interrompida pela chegada de uma cliente. Alta, magra os cabelos ruivos ondulados e soltos até os ombros, ela segurava um estabanado dogue alemão preto na coleira. Sobre um pescoço imenso, o rosto pálido parecia engessado numa expressão de distanciamento, como se o que estivesse ali fosse apenas um eco de si mesma. Nem quando começou a falar, deu a Daiane a impressão de estar se dirigindo especificamente a alguém. A voz era plana, anêmica. Perguntou se vendiam uma determinada marca de ração, como quem se comunica com entidades invisíveis.

-Não tem essa ração aqui não, senhora. – disse Daiane, sentindo seu incômodo se transformando em terror. Tinha um certo receio dessas mulheres esqueléticas, fantasmagóricas.

Rodrigo reapareceu curioso na área principal da loja. Seu habitual ar de descaso deu lugar a uma simpatia que Daiane jamais tinha visto. Daiane aumentou o rádio e amarrou a cara. As pestanas morenas pesaram sobre os olhos castanhos.

Então, Dona Violante chegou com Scarlet. Ambas idosas. Ambas frágeis e trêmulas. O dogue alemão entrou em estado de alerta e não hesitou em se aproximar da cadela anciã, na tentativa de conhecer seus cheiros. Orelhas apontadas, a cauda abanando, o gigante negro era só curiosidade e vontades. Scarlet, acuada, rosnou para ele, exibindo corajosamente as gengivas e os dentes que lhe restavam. Não estava mais em idade para aquele tipo de brincadeiras, pareciam dizer suas pupilas vermelhas e dilatadas. O macho, num tranco, derrubou sua dona ruiva no chão, desvencilhando-se assim do seu controle. Scarlet, tomada de ódio e medo, desferiu uma inofensiva mordida de intimidação. Indignado, ele abocanhou o seu pescocinho, fazendo surgir na pelagem algodoada, gotículas esparsas de sangue. E em meio ao vociferar infernal dos dois cães, Scarlet pôde ainda aplicar-lhe mais uma mordida, o que de nada adiantou, porque o que foi abocanhado desta vez foi uma patinha dianteira. Bastou um puxão para que esta fosse arrancada do corpo na altura do ombro.

Tudo isso aconteceu em pouquíssimos segundos. Não houve tempo para nada. O dogue alemão saiu galopando da loja ostentando vitorioso seu prêmio branco entre os dentes. Scarlet gania ensanguentada ao lado de Dona Violante, fulminada ali mesmo por um ataque cardíaco inclemente. A moça ruiva, em estado de choque, não se movia. Ajoelhada no meio da loja, empalidecia a níveis quase transparentes. Os ganidos de Scarlet cessaram. Daiane se virou para Rodrigo, que se dirigia para acudir a moça ruiva. Puxou-o com tanta força pela manga da camiseta, que rasgou o tecido. Agarrou o rapaz, grudando seus lábios contra os dele, enquanto esmurrava suas costas. O beijo fora tão violento que ambos sentiram sangue misturar-se às suas salivas. Pararam de se beijar e se olharam fixamente, como se buscassem um no outro, algo que se perdera na confusão. Foram interrompidos desse transe pelo grito da moça ruiva, que saíra de seu estado. Estapeava-se e puxava os cabelos vermelhos, como se quisesse arrancá-los. Uma multidão se formou na porta da loja. Os bombeiros logo chegaram. Daiane notou que seu corpo reagia novamente à batida explodindo nos alto falantes.

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